A rua de Itália

Um olhar sobre a cidade

A Rua de Itália

Bairro São Mateus. Precisamente entre a Rua Gil Horta e a Doutor Romualdo fica a Rua Chanceler Oswaldo Aranha, antiga Rua de Itália, tradicional entrada para São Mateus. Bairro que crescia a olhos vistos e famoso por ser morada do também conhecido vice - cônsul  italiano Virgilio Bisaggio  e alfaiate renomado da cidade. Murilo Mendes, em seu livro, A idade do serrote, faz referência à arte de Virgilio quando comentou que todos deveriam procurar sua alfaiataria para ficarem bem vestidos, mas tomando cuidado, é claro, com o alfaiate “Virgilio Bisaggio, manso em português, bravo em italiano, bem educado, careca...”

A casa de Virgilio, nessa mesma rua, no número 119, serviu de inspiração para o pintor italiano Ângelo Biggi, radicado na cidade, para retirar de suas paredes,  imagens de faunos e ninfas envolvidos pela natureza e reproduzi-los no Cine Teatro Central, que estava sendo decorado na mesma época.

 Anos após, no número 189, a fama dos Bisaggios foi mantida.  Virgilio Bisaggio (neto) ficou conhecido por sua fama de cavalheiro conquistador. Um sedutor à moda antiga. Galanteador inofensivo que roubava apenas o coração das donzelas incautas. Gostava de contar histórias de outras épocas, em que a estrela principal, com toda certeza, era ele mesmo.

Morei no número 119, agora prédio Eldorado Sul, mas fiquei conhecendo as histórias da rua através do simpático neto. O prédio foi construído exatamente onde ficava a casa do vice-cônsul e eu  imaginava, ao lado de Virgilio “Contador de Histórias”, como teria sido aquela casa e seus moradores, tão cheios de memórias interessante.

Mais modernamente a rua ficou conhecida como a “Rua do bar do Bigode”, bar famoso entre os jovens que infestam todos os cantos e conversam animadamente não permitindo a passagem de carros, ônibus e até pedestres que necessitam seguir o seu caminho.

O ar da noite, antes, impregnado de odores noturnos tão característicos como o perfume das damas da noite ou das camélias, hoje tem o cheiro convidativo, para alguns, e até “engordativo” do toucinho frito e estão se expandindo... O solar que existia na esquina, em frente a esse mesmo bar, que abrigava uma família amiga e o salão de cabeleireiros de D. Malvina, deu espaço ao Hotel Victory Suítes, e por vezes, ilustres visitantes são vistos circulando por nossa rua, tentando passar-se por anônimos... Muitos rostos... muitas pessoas...muitas histórias...

Atualmente, ainda moro nessa mesma rua, no número 149, em uma casa igualmente repleta de histórias... Meu vizinho simpático e conquistador nas horas vagas, neto do famoso Bisaggio, mudou-se para paragens mais distantes em fevereiro de 2012. Percebemos desde então a perda de um certo glamour e de um charme antiquado que a nossa rua possuía.

              O tempo está passando e a Rua de Itália está bem menos italiana. Aos poucos vamos perdendo contato com os novos moradores. O bairro está se transformando... O centro da cidade vem se alastrando, ameaçando engolir-nos. Vamos despedindo-nos das histórias antigas, guardando-as em arquivos preciosos e preparando-nos para a novidade que sempre está por vir e vem chegando até nós através das ruas da nossa cidade.

                                                                                                                           Renata Pereira Zaidan

 

Você não tem permissão para enviar comentários

Você está aqui: Home Outras Ideias A rua de Itália