Villa Iracema

Villa Iracema

Um dos meus programas preferidos é passear com minha filha de oito anos. Entramos no carro e saímos juntas a tagarelar sobre diversos assuntos, sem qualquer compromisso. Nessas ocasiões perdemos a noção do tempo e simplesmente, juntas, aproveitamos o momento.

Num desses passeios ela me perguntou: Mamãe, por que os prédios são tão altos? Eu gosto mais das casas. A pergunta me desconcertou. Eu também prefiro as casas, especialmente as construções mais antigas. Comecei a dar explicações sobre o crescimento das cidades quando caí em mim e pensei: não é o que ela quer saber. A pergunta tinha sido simples e direta, afinal vinda de uma criança. Respondi, então: Hoje é assim filha, antigamente não era. Ela olhou diretamente nos meus olhos e soltou um “como assim?” Falei: vou tentar te mostrar.

Nesta altura estávamos na Avenida Rio Branco, quase na esquina com a Rua Antônio Carlos, sentido Centro da cidade. Decidi seguir em frente e virar à direita na Avenida Independência, ou melhor, Avenida Itamar Franco, que para mim continua sendo Avenida Independência. Sou uma pessoa apegada ao passado...

Segui em direção ao bairro que é, e conta, um pedaço da minha história. Passei boa parte da minha infância no bairro Grambery, onde morava minha família. Notem que esta viagem ao passado é minha. Verbos em primeira pessoa do singular. Desculpe minha filha, esta é a minha história, não a nossa. Coincidentemente o bairro Grambery abriga uma enorme quantidade de casas antigas, tombadas ou não, na nossa cidade. Várias casas nas ruas Antônio Dias, Barão de Santa Helena, Santos Dumont mantêm viva a cidade que um dia foi Juiz de Fora.

Estávamos já na Rua Espírito Santo, nº 365. Deparei com uma antiga paixão: a Villa Iracema: construção imponente, em estilo Art Noveau, que recebeu este nome em homenagem a sua proprietária, dona Iracema de Souza Antunes. Confesso que minha vontade, naquele momento, era passar direto. Não. A casa que alimentava meus sonhos de infância (eu, uma linda princesa, a descer por suas escadarias gigantes e uma multidão lá embaixo me admirando) já não era a mesma. A estrutura severamente abalada. A pintura muito gasta. Janelas caindo. O pátio transformado em estacionamento. Parei de respirar. Senti um aperto no peito. O que tinha acontecido com a casa dos meus sonhos? Pela sua fotografia atual foram totalmente esquecidos seus valores históricos e culturais. E mais além, seu valor enquanto lugar de memória para Juiz de Fora.

Imediatamente lembrei-me de uma passagem de um livro que tinha lido há algum tempo (de novo o meu passado): “A cidade como um jogo de cartas”, de Carlos Nelson dos Santos. Ele dizia que “como só se vive no presente e ele é cada vez mais absorvente, é difícil entender que o espaço urbano não é só o que está sendo. Cada lugar em uma cidade está carregado do que ali aconteceu antes; é um símbolo do seu próprio passado (ou será um símbolo do meu próprio passado?). Mas é também um molde do que poderá acontecer daí para frente (o meu próprio futuro?)”.

Respirei fundo. Olhei para minha filha perdida em seu mundo infantil, sem dar qualquer importância a sua volta e, sem nada dizer, continuamos o nosso passeio.

Crystianne (16/11/13)

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