Era só uma rugazinha...

 

Era só uma rugazinha...       

Bom Francisco pra você!”, dizia o padeiro. Num dia mais inspirado, era provável que o leiteiro, antes de deixar a garrafa de leite, também dissesse, prazerosamente: “Feliz Francisco para todos!”

FRANCISCO é um nome simples, singelo, cheio de histórias. É nome de gente, é nome de artista, é nome de santo, é nome especial. Mas o que poucos sabem é que Francisco também é forma de saudação. Explico: vinda da capital mineira para cá, tão de fora, caí de morar numa rua de nome Francisco. Um nome espichado e preguiçoso para uma rua: rua Francisco Henriques.

Não sei bem quem disse que a cidade é um texto e a rua, a metonímia da cidade. Gosto mais de pensar assim: a rua Francisco Henriques é a ruga da cidade, com todas as acepções que a palavra ruga pode apresentar.

Gosto de pensar a rua Francisco como um lugarzinho assim bem secreto, bem quieto, bem eu! Eu rua!

Drummond, em Cidadezinha Qualquer, encerra a descrição da vida numa pequena cidade, desabafando: “Êta vida besta, meu Deus!”. É isso, perdida num canto dessa cidade, bem assim está a minha rua de infância, a minha infância: “Êta rua besta, meu Deus!”. Não havia asfalto, mas um armazém que era o sonho: Maria-Mole, bananada pretinha no copinho com colherzinha de madeira, pipoca de arroz, de macarrão. Infância na vitrine, infância na prateleira, infância no balcão, infância refletida nas lentes dos óculos redondinhos de Seu Elias e Dona Divina. Não havia asfalto, mas havia pique-bandeira, queimada, amarelinha, chuva de tanajura. Não havia asfalto, mas lá estava a borboleta amarela de Rubem Braga, aquela mesmo que sumiu.

Na cidade, de fora, senti-me dentro. Não havia juiz para dizer o contrário. Francisco, a rua Francisco, saudou-me, acolheu-me, preencheu-me e enrugou. Ou enruou? Ganhou asfalto, ganhou progresso. Não há mais armazém, não há mais verdureiro, não há mais queimada, só a rua que agora cumpre sua função de rua moderna: separar um lado do outro.

“Êta vida besta, meu Deus!”

Se essa rua fosse minha, só minha, eu mandava desasfaltar. Para quê? Para encontrar a infância nas calçadas, a chuva de tanajura e, quem sabe, com um pouco mais de sorte, a velha borboleta amarela!

Scheila Mara (nov/2013)

 

 

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