Das margens ao amor

 

Das margens ao amor.

A cidade que olho da sacada de minha varanda dorme serena sob um manto azul generoso, repleto de estrelas e de uma lua capaz de embriagar poetas ou espíritos mais simples, porém, sensíveis. Posso sentir o aroma perfumado vindo dos canteiros da pista central da Rio Branco que, aos poucos, vai se misturando à brisa ligeira da madrugada e juntos me devolvem à infância, às buganvílias policromas suspensas na sacada da casa da avó paterna , despertando alguma fibra íntima de minha memória. A cidade, agora, torna-se minha amiga e confidente.

Não a escolhi, tampouco aceitei-a de pronto. Na infância, Juiz de Fora era apenas uma vaga ideia, um amontoado de histórias esparsas trazidas pelo avô. Para o menino que nascera em Bicas e fora criado em um sítio, pensar em ir para qualquer lugar maior que a minúscula Senador Cortes era antes de tudo, um castigo. Por isso, não gostava de ir à cidade . As inevitáveis visitas ao pediatra eram marcadas por um grande tédio que só era quebrado ao passarmos pela rodovia União Indústria. Ao ver a série de construções ,à beira da estrada, separada apenas por alguns metros, eu sempre perguntava aos pais e avós a diferença entre motel e hotel. Existia na dúvida certa inocência misturada com o prazer de vê-los explicar fazendo malabarismos para, em seguida, perpetrarem enorme silêncio. O Paraibuna nos recebia logo no início do bairro Olavo Costa e eu gostava de mirá-lo, principalmente, nas cheias, ao sentir a força de suas águas quase transbordando nas margens. O espetáculo enchia-me de medo e fascínio, pavor e êxtase, destruição e vida. Perdi a conta das vezes que atravessei esse rio, quando, aos dez anos, mudei para a casa dos tios a fim de continuar os estudos. A paisagem de meus olhos, antes totalmente composta por terra, mato e gado foi sendo substituída aos poucos por linha férrea, asfalto, pontes, carros, sinais e... solidão!Quatro anos mais tarde, eu me despedia pela primeira vez da cidade para voltar tempos depois, partir novamente, regressar outras tantas... 

Nessas idas e vindas alguma coisa foi sendo construída dentro de mim: a cada plataforma de desembarque pisada, a memória da cidade inundava meu peito de vazio e saudade. Era o amor nascendo aos poucos, sem alarde, no improvável terreno das coisas que não podemos controlar ou prever. Juiz de Fora , finalmente conquistara o meu amor feito aqueles corações teimosos que ganham outros graças a sua insistência.

 

 

 

 

Fernando de Paiva , 19/11/2013

 

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