MINHA HISTÓRIA

MINHA HISTÓRIA

Andréia Aparecida Rodrigues

            Eu era uma menina de oito anos quando fui morar numa fazenda com meus pais e meus seis irmãos, onde meu pai era arrendatário e minha mãe era cozinheira.          

            Eu ia para a escola com meus irmãos, mas era uma escola diferente, não havia escola bonita como as de hoje. Na verdade, era uma casa de uma pessoa que só ia lá para passar o fim de semana.A professora, que era uma pessoa tão boa, que saía da casa dela no Linhares para ir ao interior só para dar aulas para a gente. Ela ia de moto.

 

           Ela dava aula na varanda da casa. Tinha um quadro bem grande, que ela dividia em três partes,uma para cada série. Todos aprendiam a ler e escrever.

            Na hora do recreio, íamos na casa de uma amiga, que a mãe fazia biscoitos e rosquinhas fritos que eu adorava.

            No final da aula, passava um trator e nós pegávamos carona nele. No caminho para casa,era muito divertido ,porque aconteciam várias coisas antes de chegarmos lá.

            Chegando em casa,lá estava o meu cachorro Tobi me esperando e os meus sete gatos. Minha mãe com a comida gostosa no fogão a lenha.

            Aos dez anos, vim morar no bairro Granjas Betânia. Não era um lugar bonito,mas era bom de morar. Na época não tinha ruas asfaltadas, não tinha água encanada. Nós tínhamos que buscar água na mina, que chamava chafariz. Tinha que lavar roupas no bicão, que era na mata do exército.Lá lavávamos as roupas e colocávamos para secar ou escorrer um pouco para não ficar pesado na hora de levar. Tinha uns varais de arame,onde colocávamos as roupas para secar e enquanto isso, eu e minhas amigas íamos nadar no lago que tinha ali perto.Quando as roupas estavam quase secas, colhíamos água para o banho e íamos para casa.

            Nessa época,era um bairro bom.Não tinha drogas nas esquinas.Podíamos brincar de queimada e de pique-bandeira. Também não tinha a padaria, o laboratório, esta bonita igreja, esta grande escola nem o Posto Médico.Mas era melhor para morar.

            Agora o bairro está mais bonito e tem tudo isso que não tinha. Muita coisa melhorou e, agora, temos também ônibus,antes tínhamos que pegá-lo lá na estrada.

            Estamos felizes com as melhorias, mas espero que melhore ainda mais!

            Morávamos eu, meu pai, minha mãe e  três irmãos. Eu era a caçula. Um dos meus irmãos tinha problema de cabeça e não podia trabalhar. Meu pai e meus dois irmãos arrumaram serviço de servente  e eu ajudava minha mãe nos serviços de casa.

            De repente as coisas começaram a não ir bem porque  minha mãe bebia e meu pai também.Ela bebia mais que meu pai e começou a andar com suas amigas, que bebiam também e tudo foi piorando a cada dia com as bebedeiras dela. Ela brigava todo dia com meu pai,xingava, tampava as coisas nele,jogava os mantimentos fora,vendia as compraras da casa para beber.

            Bebia tanto, que eu chorava e me preocupava com ela porque ele demorava a chegar e quando chegava estava bêbada e, às vezes, cheia de barro. Eu tinha que esquentar água no gás porque  não tinha chuveiro, não tinha água encanada. Dava banho nela sentada porque ele não aguentava ficar em pé de tão bêbada. Curava seus machucados do joelho porque ela caía e se esfolava toda e depois eu a colocava para dormir.

            Muitas vezes, eu chegava da escola e não tinha comida para comer, porque ela passava o dia bebendo. Não tendo nada para comer, eu ia com uma amiga pedir nas ruas do Bandeirantes e do Bom Clima nas casas chiques e voltava com um saco cheio de mantimentos para casa. Os meus amigos da escola nos viam e isso era motivo de gozação; eles nos chamavam de meninas do saco, por isso a gente ficava uns dias sem ir à escola até eles esquecerem.

            Certo dia, minha acordou toda animada e, quando cheguei da escola,ela tinha arrumado a casa,feito comida e não tinha bebido.Achei tudo isso muito bom e fiquei muito feliz.

            Conversamos ,tomamos sol no quintal,depois entramos e ela estava linda na cozinha do jeito que eu tanto queria: sóbria,pois eu nunca a via assim sem beber nada. A mãe que eu amava tanto ,era uma mulher triste e era uma alcoólatra.

            Neste dia, ela tinha ficado sóbria para mim.Eu não sabia,mas era uma despedida.Foi o meu último dia com ela. Isso foi muito triste.

            Nós conversamos, a gente se curtiu,se amou e se despediu. Ela disse sua última palavra:

            _Minha filha, me dá um copo de água?

            E eu como menina desobediente,neguei,não lhe dei.

            Ela pegou um copo com pinga,tomou seu último gole,sentou-se no sofá velho,deu o último suspiro e morreu de cirrose de tanto beber. Passei as mãos em seus cabelos,beijei seu rosto, dei o copo de água, mas não adiantava mais, ela tinha ido embora para sempre.

            Pedi ajuda aos vizinhos e a colocamos na cama.

            Fiquei com muito remorso por ter lhe negado a água. Mas ela já me perdoou. Pedi perdão por tudo que tinha feito de ruim para ela quando seu corpo estava dentro do caixão. Tenho certeza que ela me perdoou.

            Ela me deixou quando eu tinha treze anos.

               

           

In: BALDUTTI,Zélia (org.) Novos Caminhos

 

coletânea de textos  dos alunos da EJA. Juiz de Fora: Bartlebee,2013.

Comentários   

 
+1 #3 Alunos Santa Catarina 16-05-2014 15:20
parabens para quem escreveu esta lindo :-)
 
 
+1 #2 Alunos Santa Catarina 02-10-2013 16:02
lindo :sad:
 
 
+2 #1 Eliza 25-09-2013 22:40
emocionante!!!! :cry: :cry:
 

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